Em tempos eu era diferente e, no tempo que passou desde então, fui muitos mais mas não fui ninguém. Já fui alguém que hoje não sou e lembro-me de ser outro alguém em tempos em que eu era outro. Fui moldado, moldei-me, parti-me e refiz-me. Construí-me de pessoas e sentimentos, fui edificado sobre os pilares da educação de outrem que em tempos também foi alguém que não ele e que viveu num tempo em que ser alguém não era o mesmo que ser alguém hoje, num mundo regido por pessoas que já tinham sido outras e hoje já nem são essas mesmas. Sou um conjunto de realidades que eu não vivi mas que me tornam real, mesmo sabendo que nem realidades me são por essas já terem sido moldadas por quem me as ensinou, que viveu nessa realidade moldada para ele e por ele e assente na personagem que ele era então.
Sou um conjunto de peças que me foram dadas a escolher, que nem sequer encaixam bem umas nas outras e eu tento encontrar o melhor sítio para as colocar, unindo-as com uma cola que por vezes é extremamente forte e por outras é tão frágil como o desdém de quem não as quer ter mas tem de as usar. Uma escolha feita de um conjunto finito de peças que ao longo dos tempos se foram perdendo e reencontrando, desfeitas e refeitas, passadas de vida em vida acumulando o bom ou o mau do que é ter sido alguém, e, das poucas que resistiram, e das que têm chegado até mim e das quais eu tive sorte de poder escolher, tenho me tornado num novo antigo alguém e por isso não posso ser igual a ninguém nem ao que já fui e apenas serei alguém melhor se for lúcido na minha escolha. Sou alguém que já foi e já não existe e serei sempre alguém que ainda não fui.
Sem causar dor ao pensamento. Se não sou alguém que é uma cópia de alguém do passado e se não sou eu mesmo porque, entretanto, já sou outra pessoa e se o mundo onde vivo e que me molda foi construído por quem já não é, quem realmente sou eu?
terça-feira, 14 de maio de 2024
Sou alguém que já foi e já não existe e serei sempre alguém que ainda não fui
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